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Velho Castanheiro
Há um sitio da minha infância onde ás vezes regresso como que em peregrinação à catedral do passado e do fantástico, onde tudo era possível na dimensão exacta do querer. Esse lugar é tão-somente a horta grande, que sempre se chamou Valindo, um nome estranho que se ouve como um grito na luxúria ostensiva dos castanheiros velhos que desafiam o tempo como testemunhas de crenças e paixões. Pois um dia, em Valindo, na encruzilhada de dois caminhos, mesmo ali ao pé dum Castanheiro em forma de cruz ressequida que abençoa o vale, um almocreve, vindo dos lados da Réfega, apascentava a mula mansa no sossego da tarde. Uma rapariga fresca como a água que corre na fonte, onde as rãs coaxam há milhares de anos, fazia-se horta na pressa de lavrar a terra funda no anúncio do renovo para nascer. A rapariga, numa expressão gaiata, olha o almocreve de soslaio e num sorriso de cristal desafia:
-Almocreve, já voltaste desse mundo de Cristo?! Que não te casas homem, que não tens descanso!... Que mal fizeste a Deus…
O Almocreve no fulgor dos 20 anos limpa o rosto ao lenço tabaqueiro dum vermelho vivo e como quem tenta a sorte no arredio do amor, desafia:
-Se tu quisesses Maria, vendia a mula e ficava para sempre contigo…vá lá, diz que sim!
-Não sejas tonto homem de Deus! Olha, dá-me um beijo e vai-te embora!
O almocreve, na timidez de quem cumpre uma promessa ao Deus desconhecido do amor, com todo o recato, dá-lhe um beijo na testa.
-Assim não seu tonto, um beijo como um homem e uma mulher, pois não sabes que vou casar contigo!
Pois o almocreve não sabia…e o pai da rapariga lavradeira da horta também não. A rapariga havia de casar, não com o almocreve, mas com o filho do compadre, lavrador abastado de milhão, que tinha um bom tagalho de cabras, terras a perder de vista e adega fresca junto ao ribeiro.
Mas a rapariga endoidou pelo almocreve e a jura fê-la ali, na encruzilhada de Valindo, junto ao castanheiro meio seco:
-Ou caso com o almocreve, ou não caso com ninguém.
E assim foi. A rapariga nunca mais casou para desgraça do pai, honrado lavrador. O tempo passou e às vezes, pela calada da noite, a rapariga saindo de casa embrulhada num xaile preto, como quem vai a um funeral, ou a sinistras bodas, lá ia ela como um fadário para junto do castanheiro na encruzilhada de Valindo. No povoado já se falava que a rapariga ia encontrar-se com as bruxas à encruzilhada dos caminhos, sobretudo quando a lua era cheia e os grandes bailes das bruxas ganham fama de estrondoso rebuliço e medo. Por isso, ninguém na aldeia tinha coragem de se fazer à horta em noite de lua cheia. Contudo, um velho sabido da vida e das coisas do amor, jurava que a rapariga, todas as noites de lua cheia ia encontrar-se com o seu almocreve num amor único, imaterial e sem fim na horta de Valindo. O tempo passou e a fama duma bruxa já velha e carcomida pelas longas caminhadas para a horta entrou no quotidiano da pequena aldeia e quando a lua cheia se levantava lá para os lados da ribeira, a velha, mais velha do que nunca lá ia para o seu fadário. As Mulheres benziam-se e murmuravam sem rancor:
-Lá vai ela para o seu chamamento…que desgraça, Deus tenha piedade dela!
Mas uma noite, a velha com fama de bruxa e um velho vindo dos lados da Réfega encontraram-se debaixo do castanheiro, sempre debaixo do castanheiro!
-Dá-me um beijo, seu tonto…que se calhar é o ultimo, as pernas já não me ajudam a vir ver-te, almocreve do diabo! Não casei contigo, seu tonto, mas tivemos as noites mais bonitas do mundo…que o diga o castanheiro, que o diga a lua cheia…não me posso queixar!
Bem perto um rapaz e uma rapariga, dentro dum automóvel amarelo, vindos do lado de Espanha, Descansavam junto ao castanheiro e ela no sorriso mais cristalino do mundo, dizia para o rapaz:
-Dá-me um beijo, seu tonto…pois não sabes que vou casar contigo!
Então o velho almocreve e a velha lavradeira da horta, com fama de bruxa, sorriram e entenderam que estavam a nascer de novo, pois ninguém morre para sempre quando se quer bem, que o diga o velho castanheiro, que na morneza da noite de certo já assistiu a mil, a cem mil, não sei quantas juras de amor…para sempre.
Fernando Calado - Há homens atrás dos montes Comments (7)
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