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A arte de calar
Muitas vezes basta um olhar, um olhar suspenso, teus olhos sobre os olhos do outro…
Queres adivinhar o significado dos brilhos, ler o futuro imediato mais além da pupila, Queres dizer muitas coisas mas sabes que deves aguentar a ansiedade.
Isso, aperta os lábios.
Permite que as ideias circulem sem que saíam ao exterior.
Alarga o espaço entre as perguntas e as respostas, deixa que os músculos do rosto relaxem, espera um sinal de alerta.
Mantém a respiração Pensa que o outro também pensa Analisa. Espera.
A economia das palavras não é virtude exclusiva dos monges da clausura. É um jogo que pratica quem sabe fazer-se de louco, daqueles que entendem que nem todas as perguntas precisam de resposta, que a solução nem sempre chega ao abrir da boca
Para quê dizer tudo?
Porque não conservar no interior de ti próprio uma dose razoável do que pensas?
Porque não converter em segredo algumas ideias que fazem em ti uma aparição imprevista, mantendo ao menos a ilusão de que o tempo se encarregará de as amadurecer e as transforme em firmes convicções?
Porque não entender que a palavra jamais deverá ser mais rápida do que o pensamento e que nem tudo o que nos cruza o cérebro se poderá converter em palavras?
Entender que também se pode falar com gestos.
Que o silencio por vezes grita.
Aprendemos a guardar silêncio nos hospitais, nos funerais, nos actos solenes. Guardamos esse silêncio por pudor, por respeito, por dor…Guardamos silêncio pela dor que é incapaz de se converter em pranto e silêncio quando o pranto se esgota e exaustão é tudo o que fica…
Haveríamos de aprender a calar por nenhum outro motivo que não fosse apenas e só a nossa vontade.
Calar para escutar. Calar para olhar. Calar para aprender. Calar para calar
Calar para converter o silêncio em cúmplice, para saber que o eco existe.
Calar para compreender que o silêncio é o que faz os sonhos mais bonitos...
Velho Castanheiro
Há um sitio da minha infância onde ás vezes regresso como que em peregrinação à catedral do passado e do fantástico, onde tudo era possível na dimensão exacta do querer. Esse lugar é tão-somente a horta grande, que sempre se chamou Valindo, um nome estranho que se ouve como um grito na luxúria ostensiva dos castanheiros velhos que desafiam o tempo como testemunhas de crenças e paixões. Pois um dia, em Valindo, na encruzilhada de dois caminhos, mesmo ali ao pé dum Castanheiro em forma de cruz ressequida que abençoa o vale, um almocreve, vindo dos lados da Réfega, apascentava a mula mansa no sossego da tarde. Uma rapariga fresca como a água que corre na fonte, onde as rãs coaxam há milhares de anos, fazia-se horta na pressa de lavrar a terra funda no anúncio do renovo para nascer. A rapariga, numa expressão gaiata, olha o almocreve de soslaio e num sorriso de cristal desafia:
-Almocreve, já voltaste desse mundo de Cristo?! Que não te casas homem, que não tens descanso!... Que mal fizeste a Deus…
O Almocreve no fulgor dos 20 anos limpa o rosto ao lenço tabaqueiro dum vermelho vivo e como quem tenta a sorte no arredio do amor, desafia:
-Se tu quisesses Maria, vendia a mula e ficava para sempre contigo…vá lá, diz que sim!
-Não sejas tonto homem de Deus! Olha, dá-me um beijo e vai-te embora!
O almocreve, na timidez de quem cumpre uma promessa ao Deus desconhecido do amor, com todo o recato, dá-lhe um beijo na testa.
-Assim não seu tonto, um beijo como um homem e uma mulher, pois não sabes que vou casar contigo!
Pois o almocreve não sabia…e o pai da rapariga lavradeira da horta também não. A rapariga havia de casar, não com o almocreve, mas com o filho do compadre, lavrador abastado de milhão, que tinha um bom tagalho de cabras, terras a perder de vista e adega fresca junto ao ribeiro.
Mas a rapariga endoidou pelo almocreve e a jura fê-la ali, na encruzilhada de Valindo, junto ao castanheiro meio seco:
-Ou caso com o almocreve, ou não caso com ninguém.
E assim foi. A rapariga nunca mais casou para desgraça do pai, honrado lavrador. O tempo passou e às vezes, pela calada da noite, a rapariga saindo de casa embrulhada num xaile preto, como quem vai a um funeral, ou a sinistras bodas, lá ia ela como um fadário para junto do castanheiro na encruzilhada de Valindo. No povoado já se falava que a rapariga ia encontrar-se com as bruxas à encruzilhada dos caminhos, sobretudo quando a lua era cheia e os grandes bailes das bruxas ganham fama de estrondoso rebuliço e medo. Por isso, ninguém na aldeia tinha coragem de se fazer à horta em noite de lua cheia. Contudo, um velho sabido da vida e das coisas do amor, jurava que a rapariga, todas as noites de lua cheia ia encontrar-se com o seu almocreve num amor único, imaterial e sem fim na horta de Valindo. O tempo passou e a fama duma bruxa já velha e carcomida pelas longas caminhadas para a horta entrou no quotidiano da pequena aldeia e quando a lua cheia se levantava lá para os lados da ribeira, a velha, mais velha do que nunca lá ia para o seu fadário. As Mulheres benziam-se e murmuravam sem rancor:
-Lá vai ela para o seu chamamento…que desgraça, Deus tenha piedade dela!
Mas uma noite, a velha com fama de bruxa e um velho vindo dos lados da Réfega encontraram-se debaixo do castanheiro, sempre debaixo do castanheiro!
-Dá-me um beijo, seu tonto…que se calhar é o ultimo, as pernas já não me ajudam a vir ver-te, almocreve do diabo! Não casei contigo, seu tonto, mas tivemos as noites mais bonitas do mundo…que o diga o castanheiro, que o diga a lua cheia…não me posso queixar!
Bem perto um rapaz e uma rapariga, dentro dum automóvel amarelo, vindos do lado de Espanha, Descansavam junto ao castanheiro e ela no sorriso mais cristalino do mundo, dizia para o rapaz:
-Dá-me um beijo, seu tonto…pois não sabes que vou casar contigo!
Então o velho almocreve e a velha lavradeira da horta, com fama de bruxa, sorriram e entenderam que estavam a nascer de novo, pois ninguém morre para sempre quando se quer bem, que o diga o velho castanheiro, que na morneza da noite de certo já assistiu a mil, a cem mil, não sei quantas juras de amor…para sempre.
Fernando Calado - Há homens atrás dos montes Um desafio
Hoje resolvi fazer algo diferente, uma pergunta, um desafio, mais do que uma brincadeira, uma questão que pode ser até mais séria do que parece…
Na verdade o que eu quero é pedir-vos uma opinião:
Do que é que precisam as mulheres? O que é que as faz feliz? O que as preenche, as apaixona, as faz cair de quatro por um homem?
Este é um desafio para mulheres e para homens. Arrisco-me a não ter muitas respostas, mas por isso mesmo publico esta questão em vários blogues. Se, no total duas ou três pessoas derem uma resposta válida, dou-me como feliz. Não vale chegarem aqui e dizerem: Ai, isso queria eu saber! Não. Como homem, o que fazes quando queres conquistar uma mulher? E como fazes para manter essa mulher ligada a ti? Pelas palavras? Pelos gestos? Que gestos? E tu mulher? O que te seduz? O que precisas? De que sentes falta? Onde é que eles falham?
Como é? Aceitam o desafio? Eu agradeço. A minha opinião? Vem depois
Beijinhos a todos e por favor…Não me deixem a falar para o boneco, tá?
Porque milagres existem...
A morte lembrou-se um dia dum botãozinho de Rosa para sua companhia: Pôs os olhos na mais airosa das pequeninas que via; fez-lhe um aceno, a chamá-la; veio achá-la dormindo; mas viu-lhe um sono tão lindo que se esqueceu, a embalá-la, de que viera buscá-la.
José Régio
Sobre o jantar...
Olá Ninos e Ninas, as fotos do nosso jantar de ontem estão no meu outro lado. Não editei nada, umas estão melhores, outras piores, foi tudo directo. São 138 e não me chateiem se não conseguirem carregar a página, lol.
Beijinhos
(O link está em cima)
Isto é só o cheirinho, para abrir o apetite...
O vestido azulSoa-me um pouco a conto de fadas, mas já que estamos em Dezembro, porque não uma história de Esperança?
![]() Num bairro pobre de uma cidade distante, morava uma menina muito bonita. Acontece que essa menina frequentava as aulas da escolinha local num estado lamentável. As suas roupas eram tão velhas que o seu professor resolveu dar-lhe um vestido novo. Assim raciocinou o mestre: "É uma pena que uma aluna tão encantadora venha às aulas vestida assim…. Talvez, com algum sacrifício, eu pudesse comprar-lhe um vestido azul".
Quando a menina recebeu a roupa nova, a sua mãe não achou razoável que, com aquele traje tão bonito, a filha continuasse a ir ao colégio suja como sempre, e começou a dar-lhe banho todos os dias, antes das aulas. Ao fim de uma semana, disse o pai: "Mulher, não achas uma vergonha que nossa filha, sendo tão bonita e bem arranjada, more num lugar como este? Que tal ajeitares a casa, enquanto eu, nas horas vagas, vou dando uma pintura nas paredes, arranjando a cerca, plantando um jardim?"
E assim fez o humilde casal. A casa deles ficara a mais bonita que todas as outras da rua, e os vizinhos, inspirados, puseram-se a arranjar as suas próprias casas. Dessa forma, todo o bairro melhorou consideravelmente. Por ali, passava um político que, bem impressionado, disse: "É lamentável que gente tão esforçada não receba nenhuma ajuda para melhorar a vida". E, dali, saiu para ir falar com o presidente da câmara, que o autorizou a organizar uma comissão para estudar que melhoramentos eram necessários ao bairro. Dessa primeira comissão surgiram muitas outras e hoje, por todo o país, elas ajudam os bairros pobres a crescerem e a melhorarem.
E pensar que tudo começou com um vestido azul. Não era intenção daquele simples professor modificar toda a rua, o bairro, nem criar um organismo que socorresse os bairros abandonados de todo o país. Mas ele fez o que podia, ele deu a sua parte, ele fez o primeiro movimento do qual se desencadeou toda aquela transformação.
(Gardel Costa)
"E difícil reconstruir um bairro, mas é possível dar um vestido azul".
"Sonho que se sonha sozinho é somente um sonho, mas sonho que se sonha junto se torna realidade"
Pele
Fechaste as portas do teu mundo Na esperança de ele se encontrar Vais contando o tempo quase ao segundo Parece não querer passar Fazes de conta que está tudo bem E andas às voltas quando estás a sós Gritos mudos que só tu entendes No profundo silêncio que é a tua voz Não precisas de te esconder Ninguém vai encontrar O que está escrito na tua pele Só tu para o decifrar Qual o teu traço a pincel A história da tua vida Escrita, sentida, tatuada na pele
Quem lá escreveu Com a tua permissão Nem sequer, nem sequer percebeu E perdeu a folha pele Por entre as mãos
Polo Norte
Eis-me
Si tu me amasSólo en ti por siempre seré feliz Historia que presentí mucho antes De vivir en mí Porque sólo en ti encuentro lo que ayer perdí Tú eres en mi existir mi gran Felicidad
Si tú me amas yo seré esa esperanza Que jamás se querrá morir En este amor sin fin Tú serás siempre mi alma
Despertar paraísos de pasión y paz Sé que sólo los podré encontrar En mis días junto a ti. Si tú me amas yo seré esa esperanza Que jamás se querrá morir En este amor sin fin Tú serás siempre mi alma
Si tú me amas yo seré una esperanza Que jamás se querrá morir En este amor sin fin Tú serás siempre mi alma Jamás querrá morir Abrázame hasta el fin Volaré si me amas
Haces realidad la magia de soñar Volaré si tu me amas.
sempre, Nada- Beija-me, enquanto é tempo.
- Não digas isso. Sabes que é em nós que o tempo dorme.
- Não amor, não sei. E duvido. Vá, beija-me, peço-te.
- Não me peças os lábios que são teus; o beijo que é nosso. Não, não me tomes por dono de nós. Nunca.
- Então, sem demoras, ama-me como me amas.
- Porquê essa ânsia que não é paixão? Já te disse, o tempo não morre nas mãos de quem o morde. E enquanto o mar descansar em ti, navegarei rumos certos, navegação directa da polar fogosa; da bússola que são teus olhos. E enquanto o vento for teus braços, meu corpo será esse campo de verde trigo, doirado pulsar, alto mirar, que longe vês. E enquanto os teus pés forem terra, os teus dedos cal, e a tua alma tal, eu serei lustre e espuma e restos de sal. E enquanto forem as Áfricas pernas tuas, e Viana o rosto quente de verde-branca dor, voarei alto, e mergulharei, meu amor. E enquanto fores sabor, e mel, e esplendor, cinzel; e fogo em mim, morrerei por uma noite tua, por uma Lua nossa. E quando secarem os poços teus, seca-me, amor, de beijos molhados. Suga-me, paz, de olhos rasgados. E quando a chuva for chaga, e quando o vento for tento, recorda-me os lábios, e a pele, e veste-me. E quando o muro cair, e a chuva cessar; e o vento dormir, e cronos repousar. Dá-me a mão, e leva-me contigo, amor… E quando não fores mais que cinza, esse nada aos olhos dos homens, deixarei de ser homem, e serei algo, um algo que te sinta como tu. Nada… Não, não temas…temos todo o tempo do mundo para nós.
- Vá, cala-te. E toma-me. E beija-me.
(- Sim, quero-te. E calo-me. E beijo-te. E tenho-te. Sabe.)
Traçado pelo rapaz - Dias Curtos http://orapazquesentiademais.blogspot.com/
Filha do Encanto
Pequena elegia de setembro
Não sei como vieste, mas deve haver um caminho para regressar da morte.
Estás sentada no jardim, as mãos no regaço cheias de doçura, os olhos pousados nas últimas rosas dos grandes e calmos dias de setembro.
Que música escutas tão atentamente que não dás por mim? Que bosque, ou rio, ou mar? Ou é dentro de ti que tudo canta ainda?
Queria falar contigo, dizer-te apenas que estou aqui, mas tenho medo, medo que toda a música cesse e tu não possas mais olhar as rosas. Medo de quebrar o fio com que teces os dias sem memória.
Com que palavras ou beijos ou lágrimas se acordam os mortos sem os ferir, sem os trazer a esta espuma negra onde corpos e corpos se repetem, parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim, ó cheia de doçura, sentada, olhando as rosas, e tão alheia que nem dás por mim.
Eugénio de Andrade
Guardador de Rebanhos
Guardador de rebanhos
«Olá, guardador de rebanhos, Aí à beira da estrada, Que te diz o vento que passa?»
«Que é vento, e que passa, E que já passou antes, E que passará depois. E a ti o que te diz?»
«Muita coisa mais do que isso, Fala-me de muitas outras coisas. De memórias e de saudades E de coisas que nunca foram.»
«Nunca ouviste passar o vento. O vento só fala do vento. O que lhe ouviste foi mentira, E a mentira está em ti.»
Alberto Caeiro
Tempo PresenteSinto o teu corpo, junto ao meu corpo
Nos teus braços enlaçado. Olho meus olhos Nos teus vidrados E as palavras que morreram... ...Numa lágrima....em silêncio. Pedi um tempo, ao sentimento
Fiz de nós acto acabado. Segui em frente, E num segundo Fiz do presente passado... ...Numa lágrima...em silêncio. Tenho no mundo dentro do peito
A solidão, ar rarefeito. Vivo o presente E vou em frente Cabelo solto ao vento Ou numa lágrima em movimento. Luís Eusébio Dá-me a tua mãoDá-me a tua mão: Entre duas notas de música existe uma nota,
Clarice Lispector
Relógio...
(Talvez por hoje me sentir "pequenina" perante a imensidão que é viver...Talvez por isso hoje tenha escolhido este poema de Pessoa)
Adao e EvaOlhámo-nos um dia,
E cada um de nós sonhou que achara O par que a alma e a cara lhe pedia. - E cada um de nós sonhou que o achara...
E entre nós dois Se deu, depois, o caso da maçã e da serpente,... Se deu, e se dará continuamente: Na palma da tua mão, Me ofertaste, e eu mordi, o fruto do pecado. - Meu nome é Adão... E em que furor sagrado Os nossos corpos nus e desejosos Como serpentes brancas se enroscaram, Tentando ser um só!´ ![]() Ó beijos angustiados e raivosos Que as nossas pobres bocas se atiraram Sobre um leito de terra, cinza e pó! Ó abraços que os braços apertaram, Dedos que se misturaram! Ó ânsia que sofreste, ó ânsia que sofri, Sede que nada mata, ânsia sem fim! - Tu de entrar em mim, Eu de entrar em ti. Assim toda te deste, E assim todo me dei: Sobre o teu longo corpo agonizante, Meu inferno celeste, Cem vezes morri, prostrado... Cem vezes ressuscitei Para uma dor mais vibrante E um prazer mais torturado. E enquanto as nossas bocas se esmagavam, E as doces curvas do teu corpo se ajustavam Às linhas fortes do meu, Os nossos olhos muito perto, imensos, No desespero desse abraço mudo, Confessaram-se tudo! ... Enquanto nós pairávamos, suspensos Entre a terra e o céu. Assim as almas se entregaram, Como os corpos se tinham entregado, Assim duas metades se amoldaram Ante as barbas, que tremeram, Do velho Pai desprezado! ![]() E assim Eva e Adão se conheceram: Tu conheceste a força dos meus pulsos, A miséria do meu ser, Os recantos da minha humanidade, A grandeza do meu amor cruel, Os veios de oiro que o meu barro trouxe... Eu, os teus nervos convulsos, O teu poder, A tua fragilidade Os sinais da tua pele, O gosto do teu sangue doce... Depois... Depois o quê, amor? Depois, mais nada, - Que Jeová não sabe perdoar! O Arcanjo entre nós dois abrira a longa espada... Continuamos a ser dois, E nunca nos pudemos penetrar!
José Régio 1 ano
Um ano do Meu eu
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